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2003-11-24 026 [320x200]

Retrato da escola - História das origens e o presente

1. As Origens

A Escola Secundária Morgado de Mateus, uma jovem adulta, prestes a fazer vinte e três anos, tem um presente que nos agrada, porque o vivemos, fazemos parte dele, mas tem também ligado ao seu começo de vida, às suas origens, uma história algo fascinante. Fica situada numa zona limítrofe da cidade, onde se tem vindo a verificar um crescimento urbano acelerado, facto que faz com que o presente seja bem distinto do momento que a viu nascer.
O trabalho de pesquisa de que resultou este trabalho, teve início com uma conversa informal com o professor Ribeiro Aires sendo, depois, completado com a consulta dos livros de actas do Conselho Pedagógico e da Comissão Instaladora da escola, ou seja os primeiros livros de actas destes órgãos e com alguns apontamentos feitos pelo mesmo professor.
Este regresso às origens permite responder a algumas questões, das quais se destacam: Porquê o nome Morgado de Mateus? Qual o dia da inauguração oficial da escola?
Antes da abordagem dessas questões outros dados importantes merecem ser referenciados, para que o passado que alguns dos elementos desta comunidade presenciaram seja também partilhado, enquanto conhecimento, por todos os outros que as circunstâncias não permitiram vivenciar.
Os primeiros momentos da vida desta escola iniciaram-se com a colocação dos professores efectivos a que se seguiram os convites formais para a constituição da Comissão Instaladora, feitos pelo Dr. Ernesto Costa, Delegado do Ministério da Educação em Vila Real. Deste modo, a Comissão Instaladora foi constituída pelos professores Joaquim Ribeiro Aires, José Manuel Gonçalves e Arinda Andrés que, seguidos os trâmites legais, assumiram as funções de Presidente, Vice-Presidente e Secretária, respectivamente. A professora Arinda Andrés, na sequência do seu pedido de demissão, vem a ser substituída pelo professor Francisco Carvalho.
A gestão da escola começou a ser feita na Escola Secundária de S. Pedro, já que as obras não estavam totalmente concluídas. O edifício estava quase pronto mas só existiam as paredes, faltando tudo o que é absolutamente necessário e indispensável para o seu funcionamento. Não havia uma cadeira, um lápis ou uma folha de papel sequer. Não estavam ligadas a água nem a electricidade, sendo necessário ultrapassar uma série de dificuldades para a resolução de coisas que deviam estar já resolvidas em Setembro. Não havia qualquer funcionário nomeado. Foi preciso usar de astúcia para que começasse a aparecer alguma coisa. Um dos recursos foi a denúncia, sob anonimato, desta situação à imprensa.
Para suprir alguns dos problemas foi necessário que a Comissão Instaladora recorresse a outras escolas, nomeadamente às Escolas Secundárias de S. Pedro, Camilo Castelo Branco, (que emprestou dois teares), Escola Secundária da Régua, Escola Preparatória Número 2. No entanto, a escola abriu ao público sem que as obras estivessem concluídas, por exemplo a cobertura entre os pavilhões dois e três não existia ainda, nem tão pouco estava prevista, o que veio a verificar-se por exigência da Comissão Instaladora.
Apesar de todos os condicionalismos, o dia 1 de Outubro de 1986, assinala o início do ano lectivo, com a afixação dos horários; mas é nos dias 2 e 3 que os alunos começam a preencher o espaço físico, que se torna vivo e humano. No dia 2 é a recepção aos alunos do sétimo ano e no dia 3 é a recepção aos alunos dos oitavo e nonos anos, o que significa que a escola começou sem turmas do Ensino Secundário, o que veio a acontecer logo no ano lectivo seguinte.
É também de registar que foi através de contacto telefónico que a gestão da escola ficou a saber da verba de arranque que lhe tinha sido atribuída, três mil duzentos e cinquenta contos; foi este o primeiro orçamento da escola.
Quanto ao nome da escola, melhor ao caminho percorrido até chegar à meta, então desconhecida, mas que vem a ser Morgado de Mateus, revela-se bastante interessante.
Pode ler-se na acta número um do Conselho Pedagógico, de 25 de Setembro de 1986, reuniram-se os membros do Conselho Pedagógico da Escola Secundária número 3. Este foi o nome dado pelo Ministério da Educação e que a vai identificar durante os primeiros meses de actividade. No entanto muita coisa estava ainda por acontecer. A Comissão Instaladora não queria ter uma escola identificada por um número; era necessário encontrar um patrono e fez sentir isso a todo o corpo docente. Com esse objectivo, foi pedida a colaboração do Dr. Lourenço Camilo Costa que vinha publicando uma série de biografias sobre personalidades vilarealenses, no jornal A Voz de Trás-os-Montes.
Constata-se pelos registos que o processo que levou à tomada de decisão final do Conselho Pedagógico se desenrolou em, pelo menos, duas reuniões, uma realizada a 2 e outra a 8 de Outubro e que tinham como ponto único da ordem de trabalhos: Atribuição de um patrono à escola .
Havia, no entanto, um entrave legal, que determinava que se atribuísse à escola o nome da freguesia em que estava instalada, tratava-se do Decreto duzentos, barra, setenta e nove de 17 de Julho. Analisado este Decreto foi ventilada a hipótese de a escola, por pertencer à freguesia de S. Pedro, ter esse nome, hipótese logo rejeitada por já ser esse o nome de outra escola da cidade. Contudo a questão sobre a freguesia a que a escola pertencia não foi pacífica; é que logo surgiu a dúvida sobre se a Escola Secundária nº 3 pertencia a S. Pedro ou a Mateus. A incerteza da localização trouxe debate, polémica e reivindicações. Consultaram-se as autarquias e várias outras pessoas, concluindo-se que a Escola estava no lugar chamado Marrão e este pertencia à freguesia de Mateus, mas a possibilidade desta designação não agradou ao corpo docente.
Foram então colocados à consideração do Conselho Pedagógico outros nomes, a saber: Morgado de Mateus, Pedro de Meneses, D. Dinis, Miguel Torga e Otílio de Figueiredo. Destes foi votado por unanimidade o nome Miguel Torga, com os seguintes fundamentos: o facto de ser natural de S. Martinho d´ Anta, Distrito de Vila Real, sendo por isso profundo conhecedor do povo, da região e da cultura transmontanas; o facto de ser um nome ligado às letras, cultura e educação; o poder permitir uma maior divulgação da sua obra ao meio.
No entanto, esta escolha tão consensual e com fundamentos indiscutíveis, vem a revelar-se impossível de concretização, o que se pode ver na acta de 8 de Outubro do Conselho Pedagógico. É que este nome já estava atribuído a outras escolas, em particular à Escola de Sabrosa e, tratando-se de dois concelhos muito próximos este facto poderia criar problemas a nível central, mas também nos concursos dos professores (razões apresentadas pelo Presidente do Conselho Pedagógico, professor Aires, para justificar a necessidade de novamente se pensar num nome). O Presidente da Comissão Instaladora salientou que o nome a ser eleito deveria ter impacto público, ou seja, deveria ser um nome que dissesse algo à população da cidade e da lista de personalidades que apresentou a sua opção recaiu em Morgado de Mateus, facto que mereceu a concordância da professora Maria Manuel, frisando mais uma vez que este nome se encontra ligado a um lugar concreto de Vila Real e, por isso, de mais aceitação pela população que, por exemplo, Trindade Coelho, conhecido apenas por alguns.. Também a Câmara Municipal aceitou este nome, após contacto da Comissão Instaladora, fundamentando em razões que comunicou à escola e que foram lidas nesta mesma reunião de 8 de Outubro, e que se transcrevem: Quanto à Escola Secundária, uma vez que não existe ainda Conselho Directivo, deverá a Câmara propor directamente ao Ministério, o nome de um patrono.
Sugerimos o nome de Morgado de Mateus, que foi um dos homens que mais se distinguiu no campo das letras, no século XIX ao editar em Paris, a mais célebre edição Monumental dos Lusíadas. O Morgado de Mateus foi um dos homens que mais contribuiu para a renovação do pensamento liberal em Portugal, devido à sua acção como embaixador em Paris.
O Conselho Pedagógico decide revogar o nome anteriormente escolhido, Miguel Torga, e toma a decisão final, passando a escola a partir daí a nomear-se Escola Secundária de Morgado de Mateus. Depois de alguns avanços e recuos, no dia 8 de Outubro, a contento de todos, a escola ganhou, finalmente, a sua identidade, embora a Junta de Freguesia de Mateus tivesse protestado, sugerindo o nome de Frei Vicente, dado ter sido esse o fundador da Banda de Mateus.
Quanto à inauguração da Escola, ela foi pensada pelo Presidente da Câmara de então, Dr. Armando Moreira, para o dia 31 de Outubro, mas tal facto só se concretiza no dia 12 de Janeiro de 1987, como pode ler-se na acta número sete da Comissão Instaladora: (…) a inauguração desta escola teve efeito no dia doze de Janeiro com a presença do senhor Secretário de Estado da Administração Escolar, Simões de Alberto (...). Regista-se, nessa mesma acta, que foram convidadas para o evento várias individualidades civis e militares bem como o programa: O programa constou da recepção das entidades presentes, içar da bandeira pela primeira vez acompanhado com o Hino Nacional, tocado pela Banda de Mateus. De seguida houve uma sessão solene na Biblioteca, terminando o programa com a visita às instalações.
Doze de Janeiro é então o dia da inauguração oficial da Escola Morgado de Mateus, o dia que passará a ser assinalado como o do seu aniversário.

2. O Presente

Assumi funções directivas em Junho de 1994. Era preciso dar continuidade ao trabalho de implementação da escola, já iniciado pelos responsáveis que me precederem, nomeadamente pelo professor Nuno Claro da Fonseca que entendeu o teatro como uma actividade propiciadora da aquisição de competências várias, adequadas ao perfil do público de então e nele investiu fortemente fazendo com que O Grutesma fosse uma das marcas identificativas da escola. Infelizmente, apesar de todos os nossos esforços para que tal não acontecesse esta foi uma actividade que desapareceu por não haver na escola um docente com gosto e competências nesta área. No entanto, ainda não está totalmente extinta a nossa vontade de fazer renascer o grupo de teatro tão importante para a aquisição de competências de vida.
Os tempos evoluíram, e ao longo destes anos de mandato, apostamos, logo desde o início em duas áreas: ambiental - criar condições para a existência e o respeito por espaços físicos cuidados - e o incremento das Novas Tecnologias para a melhoria do serviço educativo. A área ambiental foi uma aposta ganha pela vivência do dia a dia na escola, pelo respeito quer do património natural quer do construído. A aposta nas novas tecnologias fundamentou-se na forte compreensão do manancial de possibilidades que daí poderiam advir e da convicção de que com este suporte poderíamos proporcionar aos nossos alunos e professores os meios necessários para a aplicação de estratégias mais motivadoras e eficazes, e uma melhoria de procedimentos e processos, o que se tem vindo a revelar como uma aposta acertada. Além deste aspectos há outro muito importante - o facto de ter contribuído para melhorar as competências de todos os elementos desta comunidade educativa, na área das novas tecnologias. Esta foi também uma característica distintiva da nossa escola que agora, fruto da política educativa do governo começa a ser prática generalizada.
A constatação de que nem todos têm que seguir o mesmo percurso levou também a escola a diferenciar a sua oferta formativa, logo que foi aberta uma porta para essa diferenciação. Hoje convivemos com Cursos vocacionados para o prosseguimento de estudos e Cursos orientados para o exercício de uma profissão, o que constitui sem dúvida uma mais valia para a nossa escola e para a sociedade em que nos inserimos.
A nossa população escolar, para o bem e para o mal, sofreu também ao longo dos tempos alterações significativas perdendo muitas das características rurais que lhe eram próprias e ganhando características urbanas, o que nos obriga a um repensar constante sobre a escola e a uma alteração do paradigma estabelecido.

Este texto foi elaborado:A parte 1. As Origens, pelos alunos do 12º A: Rafael Leal; Luís Carlos Morais; Ricardo Chaves e Miguel Rocha (em Área de Projecto)

A parte 2.O Presente: pela Presidente do Conselho Executivo: Professora Maria Alice Faria de Carvalho Rocha.

Vila Real, 20 de Maio de 2009